quarta-feira, 4 de junho de 2014

Pensei bem antes de começar a escrever esse post.
Não que seja uma regra. Definitivamente não é uma regra, visto que o objetivo primevo desse blog era de expor mais do que eu julgaria sensato.
Sensatez foi aprendida com Jane Austen. Aprendizado que durou tanto quanto a leitura de um de seus livros.
Enfim...
Todos os dias os dias são estranhos. Como se existisse normalidade mas ela não visitasse ninguém.
Meu avô morreu. Quinta passada.
Junto com ele foram-se as histórias de polícia de 1930, o diâmetro da terra, o significado das estrelas na bandeira do Brasil, as constelações que são visíveis a olho nu no hemisfério sul, o macaco véio, artesanato pernambucano singular e a fé inabalável nos dogmas da igreja católica. 
Meu avô nem era santo. Dizem que minha avó que era, mas não era também não. Ela também já morreu. Mas ouso dizer que era bom. 
Sempre que eu digo que alguém é bom eu lembro da resposta de Jesus ao ser chamado de bom mestre: "Bom só meu pai."
Então tá, ele podia ser beeeem pior. Acho que Deus vai me entender quando uso a palavra bom.
'Bom' também foi o morrer.
Minha tia falou logo que ele faleceu: "Ele fez o que quis a vida inteira, até mesmo na hora de morrer."
Ele não quis ir pra UTI. Então ele não foi.
Minha avó sofreu. Então dou Graças a Deus por ter poupado ele do mesmo.

Dei graças a Deus também quando me vi numa cena digna de ser descrita por Rubem Alves. (Só porque ele é bom poeta, e nada mais.)
Estava eu abanando meu avô com um leque, que estou quase certa de ter vindo de uma viagem de uma de minhas tias a Portugal, enquanto ele tentava respirar na cama do hospital. O vento do leque era meramente psicológico. Bem como um mini ventilador instalado bem ao lado dele ligado no máximo. E enquanto abanava, olhei. Ao lado da cama era possível ver toda qualidade de gente. Eram, na verdade, seus filhos e netos. Durante toda aquela quarta-feira, eles passaram por ali, foram embora, voltaram... 

Foi um quarto movimentado. Naquele ponto, já sabia-se que só bastava aguardar. E lá estavam eles. Para os desconhecidos poderia parecer uma cena bem impessoal, até insensível. Mas para quem era de 'dentro', digamos assim, era basicamente um ritual. Como se a despedida precisasse ser tão natural quanto qualquer outro evento de sua vida. Há exatamente um mês estávamos do mesmo jeito comemorando seu aniversário... Ninguém jamais pensaria...

Era quase regra seguir-se o mesmo padrão de comportamento ao entrar no quarto: falar com todas as pessoas com um olhar de preocupação, marejar os olhos, chegar perto da cama, falar com ele, ouvir como resposta um gesto de "mais ou menos" para a pergunta "como vai, vovô ou papai?", voltar-se novamente para os outros visitantes, suspirar e começar uma conversar amena. Muitas das quais eram de matar saudade, já que tinha gente que morava em Recife, Fortaleza, Brasília e Maceíó. E ficamos juntos. Não sei quanto aos outros, mas meu coração estava em um estado agridoce, com a tristeza da morte e com o frescor dos frutos abundantes dele aos seu redor. É impressionante como duas vidas fizeram tantas outras e as mantiveram involuntariamente perto. 

Em geral ninguém queria ir embora. E ficávamos lá. Meu avô consciente, pedia regularmente os devidos ajustes aos aparelhos de ventilação improvisados, respondia a perguntas, deixava-se tocar, riu algumas vezes. 

Para encurtar horas que pareceram mais longas do que realmente foram, ele se foi. 
Meu avô costumava dizer, mesmo quando estava ruim, que estava "melhor do que merece."
Eu acho massa essa frase. Isso porque sou cristã e ela faz todo sentido pra mim. E sei que pra ele foi da mesma forma.

Por isso falei de Rubem Alves. Em seu livro, "O Médico", ele fala que a gente adoece porque a gente não sabe morrer. E que a morte faz tanto parte da vida quanto o parto. Só se morre se se vive. 
Minha mãe diz que odeia a morte. Eu disse a ela que ela odeia a única certeza que ela tem na vida. 
Enfim, eu não tenho sabedorias próprias. Uso um monte de jargões, por mais que os odeie. Mas Rubem Alves veio até mim, anos atrás e me revisitou há apenas um mês para me dizer isso. E isso tranquilizou meu humano coração.

Minha avó foi sábia. Me atrevo a dizer que mais que meu avô, mesmo que o texto seja sobre ele.
Minha avó era gente. Fazia besteira. Dava mais dinheiro do que tinha, era irônica, engraçada, forte, orgulhosa. Mas era sábia. Se ela não fez por onde, os muitos 86 anos de vida deram essa sabedoria a ela. Quando o pai dela morreu, os filhos se reuniram para dividir a herança e perguntaram o que ela queria. Ela respondeu: "Se sobrar um santinho da missa de sétimo dia, eu aceito." 
Vale a pena salientar que o pai dela era quase dono de Juazeiro do Norte, algo assim...
Há quem diga que o orgulho fez ela fazer burrice. Eu digo que ela foi tão sábia quanto uma pessoa poderia ser. Ela evitou a maior fadiga da vida dela. Herança é briga besta passando a fronteira do previsível dentre os avarentos e simplórios. Eu diria que ela foi a mais rica. Um testemunho bom que espero um dia ter a oportunidade de passar para meus filhos.

Resta agora todo o resto. Filhos, filhas, netos, netas, bisnetos e bisnetas...Espalhados por aí. Impressionante mesmo ver isso. Brilhante. Ver o que meu avô deixou chegar em Blumenau, Fortaleza, São Paulo, Maceió, Brasília, Portugal... Um casal de Triunfo - PE... E eu peço a Deus que, muito mais que a genética, a sabedoria, que é a verdadeira herança deles, se espalhe.