segunda-feira, 25 de junho de 2012

cartas de são paulo #1


Eu tenho relutado esses últimos dias a parar para escreve algo, mesmo sendo cobrada por updates por algumas pessoas . Inicialmente eu me dava a desculpa de estar cansada, doente, ou qualquer coisa. Depois foi mais ou menos o fato de que escrever necessita de todo aquele processo de redação e revisão e rerevisão para evitar aquelas errinhos que nos fazem "paçar" vergonha. E mais tarde porque eu realmente não queria escrever, porque não queria preocupar ninguém, porque me lembraria da saudade que sinto o tempo inteiro, porque lembraria as pessoas da saudade que elas sentem o tempo inteiro. Ultimamente, nem facebook tenho tido vontade de entrar. Acho que pelos mesmos motivos. Eu não sei lidar muito bem com saudade. Acho que cronicidade não facilita, nem ensina. Afinal, acho que fuga não é uma maneira muito digna de se lidar com a saudade.
Enfim, saudade. Lembro e penso em todos. Lembro que devo a todos. Não no sentido de dívidas. Não que eu deva satisfações. Talvez para algumas pessoas que provavelmente não estão nem aí pra essas satisfações, mas pensam na mesma saudade de que fujo. Pensei em escrever uma carta para cada um, individual, mas peço que perdoem meu coração. Ele não vai aguentar. Então nessa primeira vez, ao som de "up with the birds" do coldplay, eu escrevo a todos vocês.



A minha primeira semana foi muito difícil para mim. Não que tenha sido a maior dificuldade do universo que ninguém jamais superará. Na verdade, eu tenho plena consciência da responsabilidade de Deus em muitos dos aspectos que facilitaram as dificuldades. Para quem não sabe, eu cheguei em São Paulo com muita febre, dores no corpo, tosse, enfim...doença. Foi difícil não lembrar da minha mãe e do caldo de galinha que ela faria para mim. Foi difícil não sentir saudade do calor que, de certa forma, não piora nem complicaria minha covalescência. Foi difícil não sentir saudade da minha cama, do meu lençol velho, da minha camisola frouxa e leve de verão que uso em todas as estações do ano. Usava. Então, os primeiros dias eu não consegui disfarçar meu sofrimento. Na quarta à noite, dia 20 de junho, eu não me reconhecia. Meu rosto estava exaurido, trágico, inchado e triste. Sei que todos notavam e volta e meia eu não conseguia empurrar as lágrimas de volta.  Em todo esse tempo de dor no peito, nebulização, voltas ao médico, antibióticos e pulmão cheio de secreção, eu perguntei a Deus o porquê. Deveria haver um porquê. Eu ainda nem sei, visse. Eu sei que um dia eu li que meus sofrimentos acabariam, que havia pago o dobro dos meus pecados. Hauhuaha Ai, isaías tem dessas coisas. Eu fiquei meio indignada com o fato de em toda minha vida, nunca ter ido para o hospital por causa de gripe. Nem tomado antibiótico por isso. E uma semana em São Paulo, sem todos aqueles remédios de sítio de Recife, eu havia ido duas vezes. Havia visto preocupação na cara da médica que auscultou e não ouviu nada, e diante de minha insistência e uma radiografia depois, se deparou numa desgraça que eu não sei se fiz bem em não querer ver.  Enfim, um dia desses eu tava bem mal, ai eu perguntei pra Deus: "Cara, sério mesmo que eu vim pra cá só pra morrer de gripe? Esse era o grande plano? Eu não podia morrer perto da minha mãe que poderia me velar, ou algo assim? Misericórdia, meu Deus. Nem de brincadeira. Minha mãe não merece isso nunca mais."

Enfim, 5 dias de 40 mg de prednisolona, azitromicina, loratadina e um xarope doido, eu estou melhor, mas ainda ouço e sinto as ''borbulhas de amor'' no pulmão em lugares totalmente novos. Sabe aquele lugar do pulmão que você nunca deveria sentir? Pois é, Fagner faz a festa lá. Ao menos vale a piada.

Ainda assim, minha maior preocupação era não preocupar minha família que está longe e não podem fazer nada. Mas pessoal, estou bem! Prometo. Consigo até ver umas coisas boas de tudo o que passei. Não falarei delas agora.

O João me ajudou tremendamente. A família dele foi(é) maravilhosa. Desde preocupação mesmo até oferecer a casa para que eu passasse o dia lá. Tá que é a casa mais gelada do oeste da 5 maior cidade do mundo, sei lá. Mas me salvaram em muitos níveis, sentidos, graus. Acho que se tudo tudo tudo der errado nas outras coisas, ainda saio de tudo com um grande "lucro" que é, senão ao menos ter conhecido gente tão boa nesse mundo!

Eu estou morando num quarto que fica numa casa onde funciona uma associação que cuida de crianças carentes, vinculadas à Igreja Batista da Vila Pompéia, prefeitura, etc etc. Eu vou procurar saber mais sobre a instituição para falar para vocês. Sei que o trabalho é muito lindo. Sim, é bem barulhento durante o dia, claro, crianças, né. Mas com todos os "poréns", tem sido, no mínimo, uma experiência muito boa. Enfim, o quarto é uma delícia. É muito menos frio que a casa do João, e ele, junto com a mãe dele, e creio que outras colaborações, o fizeram ficar muito aconchegante. O banheiro que usamos tem um chuveirinho com uma banheira, que me dá um medo danado de escorregar, e que, assim que se desliga a água quente, você sente o abraço ártico. Hhahaha Isso é bem gozado, mas meus pulmões não curtiram muito. Por sorte, lá em baixo, tem outro banheiro com box que segura o calor um pouco mais. Pelo menos enquanto melhoro, acho que seria prudente não me entregar ás paixões dos dedos gélidos desse banheiro daqui de cima. Outro dia a gente se entende melhor.

E sim, o frio. Todo mundo falar que o frio nem começou. Bom, eu comecei a reclamar. Me dizer que o frio nem começou não faz esse frio ser menos frio. Como disse Maina hoje, reclamar não ajuda em nada, e o João endossa essa parte, mas ela também me ensinou que alivia! Né não? Xingar sempre alivia os nervos. Xingarei o frio enquanto viver. Não ficarei quente, mas me sentirei mais aliviada. Huahuha. Moisés disse para a gente parar de reclamar. Ok. Mas prometo, Moisés, que é um xingamento inocente. Daqueles só da boca pra fora. Prometo que não é ingratidão.

Sobre o zoológico, eu passei a prova, falta o currículo e a entrevista. Honestamente, eu ia dizer que estou dividida. Mas não estou não. Deus está no total e completo controle disso. Se não der, ótimo. O que me irrita é um pouco o fato de, como ainda não sei de nada, não tenho feito nada no sentido de um plano b. Acho que vou me ater a comentar apenas isso. Estou totalmente em paz com todos os planos que eu nem conheço ainda. Essa paz não é daqui. Deixarei-vos-ei atualizados com maior fidelidade com relação a isso.

Roupas, tenho poucas. Hoje, passei diante do uma caixa da campanha do agasalho, no metrô. Pensei: "cara, tenho que doar alg...Nem eu tenho agasalho direito. Não posso doar! Hahhahah " Eu ri da pequena tragédia, mas a culpa é inteiramente minha. Eu tenho dinheiro, graças a Deus, só me falta ir comprar em lugares baratos, mas um dia eu doarei. A Campanha do Agasalho, por si só já é muito louco pra minha cabeça, vinda de uma zona tropical, onde as noites são amenas, sempre, e a água morna, e os coqueiros, e o céu azul... Ok. Parei.  O que me lembra....Sábado a gente foi no cinema. Vimos um filme chamado "Febre do Rato", que se descreve como sendo um retrato poético do Recife. NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO! Só isso, Cláudio de Assis, NÃÃÃÃÃÃÃO pra você. Verti duas lágrimas nos primeiros dois minutos, mais de saudade do que de tudo, porque mostrava o Centro do Recife. Mas a emoção e a parte interessante e não-traumatizante do filme para por aí. Não nego que seja um lado do recife que deve, de fato, existir. Mas essas porcarias existem no mundo todo. Aposto que Amsterdã é 300 vezes pior e ninguém fica fazendo filme dizendo que é poesia. Poesia é outra coisa. Enfim.

Hoje eu realizei um pequeno sonho, pouco mais de um ano depois. Eu gritei "independência ou morteeeeee..." nas margens do que me parece ser o que sobrou do rio Ipiranga. Hoje um canal. Triste. Mas muito bonita o parque da independência, o monumento grandioso que te coloca no lugar de "foi aqui que o Brasil aconteceu há muitos anos atrás.". O museu paulista é muito bonito, por fora, né? O parque na frente é  realeza. E sim, todas aquelas, hoje não mais tão sutis, influências maçônicas por todos os lados eram muito interessantes e, se me permitem, um pouco opressores.  Legal mesmo foi fazer esse passeio com um historiador que não sabia de nada de nada daquilo. Hahahahah

Para satisfazer meu vício e suplantar minhas expectativas, vi jandaias-maracanãs brigando,  rindo, voando, escandalizando, xingando, para um lado e para o outro naquele parque. É interessante como eu sou pateticamente satisfazível [existe essa palavra?]. Me valeu tudo até agora, só ver aqueles bichos que conheci em gaiolas a tantos km de distância, assim, brincando num dia comumente cinza.

Agora a noite eu fiz um monte de coisas. Coragem de tomar banho, por incrível que pareça, só tenho à noite. Aproveitei pra fazer um monte de coisa, enquanto ainda estou fria. Lavei roupa (que baste apenas dizer que não farei novamente do mesmo jeito, mas valeu a experiência), lavei o cabelo, tentei salvar uvas mofadas do lixo... isso depois da meia noite. Os tantos anos de prática de vida noturna em casa me valem. De manhã não tenho um pingo de coragem para nada disso.

Enfim, não foi breve. Foi a semana mais lenta, lerda, igual, arrastada de todos os tempos. Mas se tem uma coisa que aprendi com experiências difíceis é que a gente nunca se sente aprendendo durante o processo. Geralmente a gente só se enxerga mais forte, mais maduro, maior até, depois de tudo.
Eu tenho algo que já é bem importante: convicção. Tem alguma coisa que eu tenho que fazer. Então tá tudo certo. Sei que não é uma aventura "uhul vou pra cidade grande". Se fosse para escolhe, muito provavelmente eu não sairia da quentura fácil, constante e tranquila de Recife. Não abriria mão dos "sun dresses" a qualquer dia do ano inteiro. Das gostosas noites de 27°C passeando com kika no térreo do meu prédio, olhando a minha lua preferida naquela curva escura do estacionamento. Do meu quarto só meu. Pensa que eu não pensei em nada disso? Muito pelo contrário, antes não tivesse pensado. Teria sido mais fácil. Mas sim, sinto falta. Da chuva, na qual dá vontade de se banhar só de brincadeira, porque ela é morna. Saudade do morno. Daqueles que entranham na própria vida, nas próprias pessoas.  Vai que eu vim trazer o morno.

 Por enquanto, para sobreviver, permito o eco das palavras sábias da professora Rozélia em meu coração: "Tem gente que não consegue sobreviver São Paulo porque não tira Recife de dentro delas. Mas para você sobreviver, você tem que tirar! É necessário." Eu entendi o que ela quis dizer. Não vou matar o Recife do meu coração, nunca. Mas tenho que dar lugar para São Paulo, que tem coisas apaixonantes, até mesmo no frio.

Quando eu souber como é isso, eu conto pra vocês.