terça-feira, 25 de setembro de 2012

Da sedução.


Escrevi este texto em 15 de abril desse ano para tentar explicar o turbilhão de coisas que se passavam pela minha cabeça. Talvez hoje eu entenda algumas coisas melhor do que em abril, mas o turbilhão não parou. Gostaria muito de gerar crises nas outras pessoas com esse texto, apesar de crises não serem nunca agradáveis. Mas sei lá, as crises movem as pessoas, as tiram da anaestesis em que nos enfiamos todos os dias por não mais aguentarmos o atordoamento causado por elas. Talvez ninguém entre em crise. No mais, é só a realidade que vivo...e que me angustia. Talvez as pessoas próximas de mim me entendam mais. Só um pouco.

Da Sedução

Recife, 15 de abril de 2012.

Finalmente eu entendi uma coisa importantíssima: o que é Reino de Deus. E entender isso me fez enxergar muitas outras coisas. O problema de enxergar tudo isso sozinha é, basicamente, me enganar por falta de aprofundamento, o que eu julgo acontecer por ainda ser “jovem” na fé. Pelo menos por enquanto. Cabe a mim, evoluir nesse sentido. 
Enfim.  
Meu raciocínio começou com Marcos 10: 17-27. Quando o homem rico pergunta a Cristo o que ele precisa fazer para ter a vida eterna. Jesus basicamente fala que ele precisa entrar no Reino de Deus. Eu não entendia isso antes porque eu pensava que Reino de Deus, Céu e vida eterna eram a mesma coisa.  No PG que participo, as meninas viviam falando sobre como elas faziam para viver o Reino de Deus, e eu nunca entendia! Não fazia sentido. Mas me deparei com essa passagem num culto de domingo. Eis a importância de lápis e papel nos cultos. 
Foi muito interessante o que aconteceu nesse dia, pois eu lembro de que me atingiu muito forte o que o pastor falou: “...a idolatria não se restringe a divindades e entidades. Você pode ser idolatra do dinheiro, das coisas materiais, da sua beleza. E naquela semana eu tinha ficado muito deprimida pela minha falta de dinheiro. Mesmo Deus tendo me falado claramente que eu esperasse e confiasse Nele, ou seja, me convidando para participar do Reino. Eu era o homem rico, só que sem a riqueza. Eu estava confiando no dinheiro que eu não tinha. Eu estava sendo idólatra.  
E foi quando o Reino de Deus fez sentido para mim. 
Jesus nos mostra, entristecido até, que tinha diante dele um exemplo comum, muito comum, e ouso dizer que hoje, na atualidade, é mais comum ainda. Um homem rico, um burguês, ou mais modernamente falando, um homem da “classe (média) alta”. Ele não consegue se desprender das suas coisas para confiar em Deus. Penso como, talvez, hoje em dia isso seja mais difícil ainda, após todas aquelas mudanças que a sociedade sofreu. Que as fez muito mais necessitadas de coisas que, de fato, elas não precisam. Que as fez mais luxuosas, mais supérfluas. E eu ressalto o “mais”, porque isso existe muito antes do capitalismo. Capitalismo que as fez acreditar que precisam de um emprego, porque elas precisam de dinheiro, justamente porque elas precisam de todas aquelas coisas que o mundo está oferecendo. 
É quase impossível não entrar no esquema do mundo. Muitas vezes a pessoa não se vê dentro do esquema, não se considera dentro dele. Mas volta e meia você vê essa mesma pessoa no facebook escrevendo na legenda de um aparelho de celular ultramoderno: “Necessito!” Não, o celular dele(a) não é  velho, não está quebrado, mas existe um mais novo ainda. E ele, ou ela, o quer. E mais, ele(a) não quer apenas aquele celular novo, ele(a) quer ter sempre a possibilidade de, caso saia um mais novo ainda, poder trocar de celular novamente. E para isso, quanto mais ele ou ela ganhar em dinheiro, melhor. Melhor sua vida será. Mais feliz ele ou ela será. Mas quem ditou essa necessidade? Quem disse que ele ou ela necessitam de todas essas coisas? Do mais novo o tempo todo? Que felicidade é essa?
É uma ganhola que entramos voluntariamente. 
Eu arrisco dizer que o diabo encontrou uma estratégia sutil, sedutora, veloz e progressiva. 
Tanto no dinheiro, no sentido de ter coisas, como no conhecimento, no poder. A frase do Francis Bacon, “Saber é poder” que repercute até hoje. É um eco quase imperceptível, quase impossível de identificar para quem já não mais se pergunta de onde ele vem, mas ele está lá. Então, o homem é seduzido também a entrar nesse mesmo esquema, sentindo a necessidade de saber mais, de ter mais conhecimento, de ter mais poder. Mas eu suspeito que essa estratégia não tenha apenas uns poucos séculos. Será que ela não vem de muito antes? Será que não foi dessa mesma forma que o homem foi seduzido a entrar no pecado?  
É a serpente no Éden. 
Deus, na sua sabedoria, proibiu o homem de comer o fruto de uma árvore. Havia milhares de árvores, mas o fruto desta o levaria à morte.  
Meu medo é justamente essa interpretação. O fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Trazendo isso para os dias de hoje, o que temos como frutos do conhecimento? O conhecimento dá poder! E não dizem por aí que o poder corrompe? Não sei se isso é regra, mas talvez torne a pessoa mais corruptível. Ela tem mais possibilidades de corromper-se, e aos outros, que quando não tinha poder algum. Poder no sentido de lugar de fala, de controle, de posição social, detentor de conhecimento.  [Gandalf, em "O Senhor dos Anéis", sabia mais, e se recusou a ser o portador do anel. O portador do poder.]
Mas quando Deus falava de morte, ele não se referia à morte imediata da carne. Até por que, Deus não mente, eles comeram o fruto, e não morreram. A serpente sabia disso. Sabia que a morte seria a consequência da decisão do homem. De conhecer o bem e o mal. 
Essa semana eu vi um vídeo de um pastor chamado Josemar Bessa. Nele, o Pr. Josemar fala que o homem morre porque ele não sabe lidar com o conhecimento do bem e do mal, e por isso o homem não é livre. Por isso, só Deus é livre. Mas lembremos de que entramos na prisão por escolha nossa. Voluntariamente. E até hoje o fazemos. 
Interessante perceber que, observando essa dinâmica em uma perspectiva sem Deus, a prisão não desaparece. Eu diria que se torna, apenas, inescapável. Continuamos presos. Diferente do que o Pr. Josemar cita do Jean Paul Sartre: “Se Deus existe, eu não sou livre. Se eu sou livre, Deus não existe.” Se Deus não existisse (deixando de lado todas as lógicas que isso origina), e nós estivéssemos exatamente como estamos agora, eu não vejo liberdade alguma. Seriamos escravos de um sistema que só funciona se nos submetermos a ele. Presos a uma vida que só funciona, que só nos aceita, se nos submetermos a ela. Uma vida que nos dá uma única opção para vivermos nos modelos de conforto que ela própria criou: subjugados a ela. Só vivemos numa sociedade se formos limpos, tivermos moradia, tivermos erudição em alguma coisa, se tivermos algo para oferecer para o mercado; então seremos colocados em nossas respectivas posições sociais, nossa “classe”, dependendo da quantidade de coisas que possuirmos, e tudo isso controlado por dinheiro. Eu ia dizer papel, mas hoje em dia o dinheiro é criado e some antes mesmo de virar papel. Se você não tiver dinheiro, é marginalizado; se você não quiser dinheiro, é marginalizado; se você não gostar de dinheiro; é marginalizado e taxado de louco. 
Bom. Nesse sentido, se você é chamado de louco, significa que, provavelmente, você está fazendo alguma coisa certa. O Plano de Deus é considerado “loucura”.  
Estudando um pouco sobre renascimento, eu pude ver que foi aí que o capitalismo ganhou nome. Para mim, foi a bola jogada do topo da colina, que saiu rolando desenfreado. Mas essa bola sempre existiu. Pensei nisso quando lembrei da sedução. 
Adão e Eva foram seduzidos a comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, para serem como Deus, e ter o conhecimento que, até então apenas Deus detinha: distinguir o bem do mal. A própria árvore era sedutora. No versículo 6 do terceiro capítulo de Gênesis, Eva repara na beleza da árvore, que a fruta era agradável ao paladar e atraente aos olhos. E ela só nota depois que a serpente apontou. Por intermédio do Diabo. 
Judas foi seduzido a trair Jesus, por trinta dinheiros. Por intermédio do diabo. 
 umas semanas atrás, eu vi um filme francês chamado “A beleza do diabo”. Trata-se da história de Fausto. Aquele que foi reproduzido nas representações de tantos autores, mas se tornou clássico através do Goethe. 
No filme, Fausto era professor, velho, tinha todas as honras da universidade, mas estava ao fim da sua vida e percebeu que sua pesquisa jamais seria finalizada. Ele pesquisava uma maneira de produzir ouro a partir da areia. Ele era alquimista. Então, o diabo, Mefistófeles, aparece para lhe fazer uma proposta: a juventude que ele precisa para terminar sua pesquisa, o que, consequentemente, lhe daria fama e fortuna (e mulheres), o que Fausto considerava ser a Felicidade. A Felicidade em troca de sua alma. 
Sei que o filme/livro/mito usa da alegoria para passar a mensagem da perfectibilidade. Que para muito não passa de uma alegoria e que a real problemática da perfectibilidade é o homem, assim como pregava o renascimento: no foco, no centro, começo, meio e fim. 
Eu não creio em coincidência. Não é coincidência o diabo estar nas três situações, como intermediador. A primeira seduz com o conhecimento, a segunda com o dinheiro, e por fim, em Fausto, temos a combinação das duas. A primeira destronou Deus como a soberania do conhecimento, a segunda traz o dinheiro como mais valioso que Deus, e o terceiro, o homem é detentor do conhecimento, criador do dinheiro, e dono e causa de sua própria felicidade.  
Por isso eu me questionei sobre essa árvore do conhecimento. 
O que será o conhecimento do bem e do mal? Será a própria noção de que se é corruptível se o permitir, ou vai além? Vai ao encontro do que vi em Fausto: conhecimento do mundo, das coisas, da sabedoria humana, da construção do conhecimento e do pensamento, da filosofia, da matemática, da física, da biologia? O conhecimento dos meios de controlar a natureza, de controlar as pessoas? O humanismo do renascimento? O que temos hoje? É uma dúvida sincera. Enxergo muitas semelhanças. E eu não consigo separar o humano do espiritual quando se trata desse “esquema”. Não mais. 
E aí eu cheguei naquele ponto: 
Paulo fala, em sua carta aos Filipenses, que morrer é lucro, pois ele vai estar com Cristo. Eu quase enlouqueci quando vi isso. Porém, ele fala mais: que se para Deus é melhor que ele fique aqui para ganhar pessoas para Cristo, diz já não saber mais se é melhor morrer ou viver. 
Disso eu entendi que é como se ele precisasse estar no meio das pessoas que estão neste esquema para ganhá-las para Cristo, ou seja, estar neste esquema. Você nunca vai ganhar pessoas para cristo no meio de cristãos (considerando que todos eles estão verdadeiramente em Cristo). Eles já estão ganhos. Deus o queria inserido no sistema. Meio matrix. O que, na verdade, faz muito sentido. No filme, a cidade em que todas as pessoas acordaram, se libertaram do sistema, que veem a matrix como o que ela é, virtual, ilusão, mentira, se chama Sião. E essas pessoas vivem perseguidas, protegendo Sião, ou Zyon, mas sempre resgatando mais e mais pessoas da matrix.  
Deus nos quer como em matrix. Nos quer lá dentro, para um propósito maior. Mas da mesma maneira como em matrix, ele nos quer enxergando tudo, enxergando a farsa que ela é, a prisão que ela cria, vendo as pessoas presas e enganadas e tirando elas de lá. É sinceramente atordoante. 
Isso faz sentido? Eu estou ficando louca? Hehehehe Parece muito uma teoria de conspiração, mas fico pensando que acreditar que não há conspiração qualquer, seja no humano ou no espiritual, parece ser ingenuidade.  
Enfim...era isso. O meu problema é estar pensando em todas essas coisas, que para mim fazem sentido, e começar a falar isso por aí sem ter um embasamento bíblico, histórico, etc etc...E acabar falando e fazendo besteira. Considerando, novamente, o fato de eu ainda ter um conhecimento muito raso. E se tudo isso for loucura, eu prefiro que me digam logo, porque eu paro de me estressar com isso e vou pensar em coisas menos tensas para passar o dia.